Publicado por: felipeperetti | 11/07/2010

Exemplo

O legado da África do Sul para o mundo

da Cidade do Cabo, Felipe Peretti

Foto: Marcos Limonti

A Copa do Mundo de futebol de 2010 jamais será esquecida pela África do Sul pela importância econômica que significará para o país. A desconfiança e o preconceito de europeus, asiáticos e americanos deverão tomar um caminho contrário de agora em diante seja quanto ao turismo ou aos negócios. E o país que foi o centro das atenções do dia 11 de junho até hoje deixará para o mundo uma mensagem de humanidade e união.

A começar pelo povo, que agiu durante a Copa do Mundo como verdadeiro embaixador do país. Atenciosos, educados e alegres, a grande maioria deles cumpriu o papel de mostrar aos estrangeiros o que de melhor o país tem a oferecer. O governo também cumpriu a tarefa de organizar o maior evento esportivo do mundo, embora tenha deixado um pouco a desejar no transporte público.

A humanidade, enredo da festa de abertura e de encerramento esta noite (durante a tarde no Brasil), foi a grande celebração nesses 31 dias num país onde a diversidade cultural é grande, fundamentalmente pelas 11 línguas oficiais, mas no desenvolvimento todos parecem utilizar a linguagem da união.

Aspecto fortalecido graças à democracia, que faz parte da história da África do Sul há apenas 16 anos – é por isso que a mascote da Copa, o Zakumi, tem a mesma idade –, e que começou em grande estilo: Nelson Mandela, um advogado negro que se uniu a luta contra o apartheid, regime de segregação racial imposto por uma minoria branca entre 1948 e 1994.

Sem dúvidas, um dos maiores nomes da história mundial quando o assunto é a luta pela paz. Um exemplo de que os fins não justificam os meios. Considerado um terrorista e sabotador pelo governo racista, foi sentenciado à prisão perpétua sem nunca ter apoiado a luta armada. Permaneceu enclausurado durante 27 anos, 22 deles só na Ilha Robben, próxima à Cidade do Cabo. Libertado em 1992 depois da pressão internacional e de sua inegável inteligência nas negociações, Mandela saiu da prisão ainda mais forte. A vingança ou o ódio não floresceram na cela de um pacificador por excelência.

Dois anos depois, tornou-se presidente após a primeira eleição multi-racial do país e grande nome da união que hoje pode se notar, ainda mais no período de festa que vive a nação.

A presença de Mandela na final ainda é incógnita, mas o presidente da Fifa, Joseph Blatter, já revelou que o convidou para entregar a taça de campeão a Carlos Puyol, da Espanha, ou a Giovanni van Bronckhorst, da Holanda. Seria a grande imagem do Mundial 2010 tanto para os sulafricanos quanto para os estrangeiros. Não é só o Brasil-2014 que tem o que aprender com a África do Sul-2010. É mais do que infraestrutura, é humanidade.

Foto: Marcos Limonti
Publicado por: felipeperetti | 09/07/2010

Replay?

Indecisão para São Paulo-2014 lembra Cidade do Cabo-2010 e seu resultado discutível

da Cidade do Cabo, Felipe Peretti

Estádio Green Point | Foto: Felipe Peretti

A indecisão sobre qual será o estádio de São Paulo para a Copa do Mundo de 2014 continua. Depois que o Morumbi foi descartado, a construção de uma nova arena é debatida. Agora, os governos municipal e estadual hesitam em erguer aquilo que significaria muito dinheiro e pouco retorno. A mesma dúvida que enfrenta as autoridades paulistas já fez parte da preparação da Cidade do Cabo para o Mundial de 2010. O preço foi a perda do jogo de abertura e um palco com um futuro discutível.

Antes da construção do Green Point, o principal município turístico sulafricano tinha o estádio Newlands, tradicional palco de rúgbi que abrigaria 40 mil torcedores durante a Copa, como o estádio local no livro de candidatura entregue à Fifa. Estruturado e localizado em um bairro rico, apenas pequenas reformas a baixo custo seriam necessárias para se adequar às exigências dos organizadores do torneio.

Estádio Newlands | Foto: Felipe Peretti

Mas a preferência da prefeitura e do governo da província de Western Cape era o estádio Athlone, que suportaria o mesmo número de torcedores que o Newlands. Contudo, a arena fica localizada em um bairro mais pobre e teria um valor simbólico na história e no desenvolvimento da vizinhança onde o futebol da cidade nasceu.

Estádio Athlone

A provável mudança de sede não agradou aos cartolas da entidade máxima de futebol, que chantagearam o governo local ao sinalizarem para a realização de apenas cinco jogos – a cidade abrigou oito jogos desta Copa – e sem possibilidade para semifinal, uma vez que a Fifa exigia estádios com mais de 60 mil lugares para esta fase do Mundial.

“[Danny Jordaan, chefe do Comitê Organizador Local] ligou [para Ebrahim Rasool, então governador da província de Western Cape] e disse que a delegação da Fifa não estava convencida que Athlone pudesse ser um dos estádios da Copa e que consideravam que a Cidade do Cabo não estava dando o seu máximo”, revelou Laurine Platzky, coordenadora da província para a Copa.

Foi então que o presidente da Fifa, Joseph Blatter, visitou a Cidade do Cabo e se reuniu com o presidente sulafricano na ocasião, Thabo Mbeki, como conta os jornalistas Karen Schoonbee e Stefaans Brümmer no livro “Player e Referee – Conflicting interests and the 2010 Fifa World Cup” (sem edição em português, mas que pode ser entendido como “Jogador e Árbitro – Interesses Conflitantes e a Copa do Mundo Fifa 2010”). Um dia depois do encontro, um dos ministros avisou Rasool sobre a necessidade da construção de um novo estádio: o Green Point.

No começo, município e província relutaram em começar as obras, mas a visibilidade turística e política foram decisivas. A primeira pela importância econômica que representa. A segunda pelo fato de Western Cape ser o único dos nove estados governado pelo partido de oposição, a Aliança Democrática, e a importância de mostrar serviço.

Assim, a Cidade do Cabo ganhou um belo estádio com capacidade para 70 mil pessoas e ao custo de 4,5 bilhões de randes (R$ 1,125 bilhão), perfeito para a Copa do Mundo. O futuro, contudo, é discutível. O futebol provavelmente não conseguirá mantê-lo, o rúgbi já tem sua casa histórica e dificilmente se mudará. A conta, essa sim já tem destino certo: o bolso do contribuinte. E a fórmula poderá atravessar o oceano Atlântico e desembarcar em São Paulo.

Publicado por: felipeperetti | 08/07/2010

Recalculando rota

A lição do aeroporto de Durban para o Brasil-2014

da Cidade do Cabo, Felipe Peretti

“Os três grandes problemas que temos para a Copa-2014 são, inegavelmente, aeroporto em primeiro, aeroporto em segundo e aeroporto em terceiro”. Este foi o discurso do presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) em Johanesburgo a respeito da prioridade do Brasil na organização da Copa do Mundo daqui a quatro anos. Mas apenas a construção ou reforma de prédios não é a solução, como mostra o exemplo de Durban na África do Sul.

Ao custo de 7,2 bilhões de randes, aproximadamente R$ 1,8 bilhão, o aeroporto internacional King Shaka foi a grande obra do setor aéreo do país, que investiu 17 bilhões de randes, cerca de R$ 4,3 bilhões. Mas horas antes da partida entre Alemanha e Espanha, realizada em Durban pela semifinal do Mundial, pelo menos cinco voos – quatro de Johanesburgo e um da Cidade do Cabo – foram forçados a voltar e outros sofreram atrasos em razão do acúmulo de viagens como o mesmo destino.

Ou seja, os novos 72 balcões de check-in, 34 lugares para aeronaves estacionarem, 102 mil m² de área no terminal de passageiros (equivalente a 27 campos de futebol) e 6.500 vagas de estacionamento público não adiantaram para quase 1.800 torcedores que perderam a oportunidade de assistir à vitória espanhola no estádio Moses Mabhida.

O problema foi operacional, aspecto que ainda mancha o setor aéreo brasileiro. A crise de 2006, catalisada pelo acidente do vôo da Gol 1907 em setembro que matou 154 pessoas, ainda não foi resolvida completamente. Apenas se foram alguns controladores e um ministro da Defesa.

Na coletiva de ontem em Johanesburgo, o cartola da CBF até esboçou um plano.

“Existe uma ideia de dividir o Brasil em quatro para evitarmos que haja grandes transportes de torcedores de um lado para outro pelas distâncias que nós temos. Mas isso ainda não está definido”.

Segundo um estudo do Sindicato Nacional das Empresas Aeroviárias (Snea), os principais aeroportos brasileiros operam acima da capacidade. O comandante Ronaldo Jenkins, diretor do Snea, revelou no começo do ano ao jornal “O Estado de S. Paulo”. que não há previsão de um novo apagão, como ocorreu em 2006, mas alertou para o risco de vários aeroportos não terem condições de receber novos vôos e que algumas obras já deveriam estar prontas.

“A maior parte dos investimentos em obras está prevista para 2012 e 2013. E há projetos que devem acabar só em 2014. O cronograma está muito apertado, principalmente ao considerar que eventuais problemas ambientais ou judiciais podem atrasar ainda mais as obras”.

A Infraero já adiantou que as reformas custarão mais do que o investido no setor pela África do Sul para 2010 e ultrapassará R$ 5 bilhões. E foi só o primeiro orçamento.

Publicado por: felipeperetti | 07/07/2010

Calada

Começa a caça às vuvuzelas pelo mundo

da Cidade do Cabo, Felipe Peretti

Foto: Felipe Peretti

Barulhenta e polêmica, a vuvuzela será lembrada como o grande símbolo da Copa do Mundo da África do Sul. Mesmo que ninguém ainda tenha provado que o instrumento típico dos torcedores de futebol sulafricanos causa danos à audição, ele incomodou muita gente dentro, fora e até os telespectadores. Mas a febre que dominou o país-sede do Mundial não deve se alastrar mundo afora e as primeiras medidas proibitivas já foram tomadas.

Na Alemanha, a corneta de plástico se tornou uma espécie de “persona non-grata” em alguns estádios do país, assim como em eventos públicos organizados nas cidades de Berlim, Nuremberg, Hamburgo, Hannover e Colônia.

O gerente da agência de eventos UBA, Uew Bermann, responsável pela transmissão dos jogos da Copa no bairro de St. Pauli, em Hamburgo, não economizou palavras para explicar o porquê da tolerância zero com as vuvuzelas na festa que reuniu mais de 65 mil torcedores na estreia alemã neste Mundial.

– De outra forma, não poderíamos cumprir as leis sobre poluição sonora. O bairro explode caso 40 mil torcedores fiquem assoprando essas cornetas -, afirmou à emissora de televisão local Deutsche Welle.

O banimento também já alcançou outros esportes. No tradicional torneio de tênis de Wimbledon, na Inglaterra, as vuvuzelas ficaram de fora.

– Do ponto de visto do barulho, elas poderiam ser muito perturbadoras aos jogadores e espectadores. Acreditamos que os fãs vão entender -, disse o porta-voz da competição vencida pelo espanhol Rafael Nadal no último domingo.

Na esfera do rúgbi, autoridades da Nova Zelândia já proibiram a polêmica corneta durante o campeonato Tri-Nations, que reúne apenas as equipes neozelandesa, australiana e sulafricana. Para o jogo de abertura entre a seleção da casa, os All Blacks, e da África do Sul, os Springboks, o recado foi dado pela organização

– São esperadas 25 mil pessoas na partida deste final de semana e qualquer vuvuzela trazida ao local será confiscada -, avisou o chefe executivo do estádio Eden’s Park, David Kennedy, onde ocorrerá a partida no dia 10 de julho.

Vale lembrar que na África do Sul as vuvuzelas são proibidas em todos os jogos de rúgbi organizados no país. Na arena de Newlands, na Cidade do Cabo, por exemplo, uma placa logo na entrada alerta: “Instrumentos musicais proibidos: violões, baterias e vuvuzelas”. Ao lado de algumas entradas, caixas de papelão aguardam ansiosamente as cornetas coloridas.

Foto: Felipe Peretti

Mas no futebol sulafricano, elas jamais serão deixadas fora. Que o dia a Fifa, que estudou bani-las durante a Copa do Mundo, mas foi vencida por um aspecto maior: a cultura local. Para o Mundial de 2014, no Brasil, o criador da versão de plástico das vuvuzelas, Neil van Schalkwyk, já recebeu duas sondagens de empresários brasileiros para levar o instrumento à próxima sede. Será?

Publicado por: felipeperetti | 06/07/2010

Holanda e holandeses

Festa alaranjada na Cidade do Cabo da melhor torcida da Copa do Mundo

da Cidade do Cabo, Felipe Peretti

Foto: Felipe Peretti

O dia é azul na Cidade do Cabo só no céu, porque o laranja domina as ruas. Apesar da torcida brasileira estar voltada para o Uruguai, aqui os holandeses são maioria, ainda mais com o respaldo dos sulafricanos, amantes do futebol europeu e dos meias Wesley Sneijder (que atua na Inter de Milão, da Itália) e Arjen Robben (do Bayern de Munique, da Alemanha).

A terça-feira é decisiva para a Holanda e Uruguai, que se enfrentam no estádio Green Point, a 2,6 quilômetros da fan fest, onde milhares de holandeses começam a festa seis horas antes da partida que vale vaga na final da Copa do Mundo da África do Sul.

A maioria deles tem ingresso e sempre acompanham a seleção onde ela joga, como muitos fizeram em Porto Elizabeth, local onde mancharam de laranja o sonho do hexacampeonato brasileiro em 2010. E haja criatividade para eles: de longe, são os torcedores que mais se fantasiam e se destacam na Copa.

– A Copa do Mundo não é futebol apenas. É tempo de festa e alegria. Ainda mais com nossa seleção prestes a ser campeã do mundo pela primeira vez. Eu serei o piloto que levará nossos heróis para casa -, brinca Peter van Hoijd, vestido de piloto de avião ao lado de seu “co-piloto” Martin e das respectivas “aeromoças”, ou melhor, esposas.

Foto: Felipe Peretti

O laranja é a marca de todos eles. Embora a bandeira holandesa seja formada pelo vermelho, branco e azul, a tonalidade alaranjada é símbolo de orgulho. Afinal, a família Orange (laranja na tradução para o português) foi a responsável pela independência do país diante dos espanhóis após a Guerra dos Oitenta Anos (1568-1648).

Mas a duelo do dia é outro. Há duas horas e meia do jogo, começam a marchar juntos rumo ao campo de batalha: o estádio Green Point.

Foto: Felipe Peretti

O “inimigo” é a Celeste, que leva um grande golpe logo aos 18 minutos com o golaço de Giovanni van Bronckhorst. Valente, o time uruguaio consegue o empate antes do intervalo com o grande nome da equipe: o atacante Diego Forlán.

Wesley Sneijder, autor do segundo gol holandês

Segunda etapa e o time holandês impõe seu favoritismo com as estrelas Sneijder e Robben, faz 3 a 2 e derruba o último sulamericano do Mundial de 2010. Depois de 32 anos, o laranja volta a figurar em uma final de Copa.

Arjen Robben comemora o terceiro tento da Holanda

O “piloto” Peter já deve estar preparando seu avião de volta. Mas caso não leve sua equipe campeã no próximo domingo, seus compatriotas torcedores já garantiram o título de melhor torcida do torneio.

Foto: Felipe Peretti
Publicado por: felipeperetti | 05/07/2010

Saldo positivo

Autoconfiança e imagem positiva: o legado da Copa para a África do Sul

da Cidade do Cabo, Felipe Peretti

Foto: Felipe Peretti

Enquanto a Copa do Mundo é sinônimo de festa para os torcedores, para governos significa oportunidades de investimentos e desenvolvimento econômico. O legado do maior evento esportivo para a África do Sul, contudo, não será principalmente a implantação de um sistema de transporte público ou a construção de cinco novos estádios. O pós-Copa na terra de Nelson Mandela será a renovação da autoconfiança da nação e a mudança da imagem criada no exterior.

A visão é da organização World Future Society (WFS) que, com o apoio do governo local, organizou uma relatório sobre os reflexos do Mundial nos próximos 20 anos. Intitulado “2030 Conversations” e lançado hoje na Cidade do Cabo

– O sucesso da Copa do Mundo tem renovado principalmente nossa autoconfiança como nação. E autoconfiança é o ingrediente chave do desenvolvimento econômico. Se as pessoas não se sentem confiantes, elas não vão gastar ou investir seu dinheiro. Outra grande contribuição do Mundial tem sido a construção de um cenário de oportunidades. Sofremos por muitos anos com a imagem negativa do país com a desigualdade social e a política. Agora com a mídia nos olhando, temos observado que essa imagem tem mudado -, disse o presidente da WFS, Michael Lee.

A autoconfiança é o principal pilar do texto, que ressalta a necessidade sulafricana de “uma nova identidade como uma nação capaz com fortes valores éticos, familiares e comunitários” para a construção de uma moral visando o fim do racismo, da alienação e da violência até 2030. Segundo o Coeficiente de Gini, atualmente a África do Sul é o nono país com maior desigualdade social no mundo.

A coordenadora do projeto da Copa do Mundo da província de Western Cape – cuja capital é a Cidade do Cabo –, Laurine Platzky, é uma das apoiadoras do estudo e ironizou a mídia que veiculou pelo mundo imagens negativas do país-sede.

– Parte imprensa britânica eu realmente não entendo. Jornalistas desembarcaram aqui para escrever histórias como o tráfico de mulheres, prostituição, e isso não aconteceu. Eu acho que há muitas pessoas ao redor do mundo que acham que conhecem a África, a África do Sul, e nós que vivemos aqui, não. Se nós tivéssemos gastado milhões de dólares em comunicação ou esclarecimentos, seria um grande problema. Por isso, nos preocupamos em investir o dinheiro neste grande show que é a Copa. Foi a coisa certa e os reflexos hoje podem ser notados.

Sem dúvidas, a África do Sul deverá conseguir fazer parte do mapa para os turistas. Por onde se anda, é difícil não ouvir de um estrangeiro a surpresa pela organização, estrutura e hospitalidade do país. A imagem dominada pela pobreza e violência vai se apagando. É o tempo da África e o fim do preconceito. A vez do Brasil chegará em 2014 e há muito que aprender com eles.

Publicado por: felipeperetti | 05/07/2010

Legado

Copa aumentou autoestima dos sul-africanos, diz ONG

Relatório apresenta pontos-chaves para o desenvolvimento do país

por Felipe Peretti, da Cidade do Cabo

Laurine Platzky: Fomos vítima de um preconceito em alto nível | Foto: Felipe Peretti

Diante da visibilidade e oportunidades criadas pela Copa do Mundo na África do Sul, a organização não governamental World Future Society (WFS), com o apoio do governo local, decidiu organizar um relatório sobre o legado do torneio e seus reflexos para os próximos 20 anos. Intitulado “2030 Conversation” e lançado nesta segunda-feira na Cidade do Cabo, o documento ressalta mais do que a construção de novos estádios, infraestrutura de transporte público ou aumento do turismo. Destaca um sentimento renovado e a construção de uma imagem positiva do país.

“O sucesso da Copa do Mundo tem renovado principalmente nossa autoconfiança como nação. E autoconfiança é o ingrediente-chave do desenvolvimento econômico. Se as pessoas não se sentem confiantes, elas não vão gastar ou investir seu dinheiro. Outra grande contribuição do Mundial tem sido a construção de um cenário de oportunidades. Sofremos por muitos anos com a imagem negativa do país com a desigualdade social e a política. Agora com a mídia nos olhando, temos observado que essa imagem tem mudado”, disse o presidente da WFS, Michael Lee.

Michael Lee: Autoconfiança é o ingrediente-chave do desenvolvimento econômico | Foto: Felipe Peretti

Tal autoconfiança é o principal pilar do relatório, que ressalta a necessidade sul-africana de “uma nova identidade como uma nação capaz com fortes valores éticos, familiares e comunitários” para a construção de uma moral visando ao fim do racismo, da alienação e da violência até 2030. Segundo o coeficiente de Gini, a África do Sul é o nono país com maior desigualdade social no mundo.

“Não é exagero dizer que a evolução para fortalecer esses cinco pilares (etos, educação, economia, meio ambiente e energia) em grande medida determina se a nossa terra vai cumprir ou não sua promessa de imensa liderança até 2030. Este ano de 2010, ao que parece, é um ponto de ramificação para a África do Sul. Escolhas nacionais devem ser feitas em breve. E que elas possam ser firmemente baseadas no conhecimento e na perspicácia”, destacou Lee.

Segundo a organização, o PIB sul-africano poderá crescer 7% ao ano nas próximas duas décadas, o que proporcionará ao governo facilidades para promover melhores condições de educação para todas as comunidades, manter os ecossistemas protegidos e investir em fontes renováveis de energia, principalmente a solar e a eólica.

Para o demógrafo do Instituto de Pesquisas do Futuro, Bärbel Haldenwang, o crescimento sustentável é necessário porque o país ainda sofrerá uma rápida urbanização nos próximos anos. Até 2030, 71% da população viverá nas cidades (hoje são 51%) e 65% estará na idade ativa de trabalho, isto é, entre 15 e 64 anos.

Contudo, o número de sul-africanos só crescerá três milhões em 20 anos e atingirá a marca 52,2 milhões de habitantes. Baseado nos cálculos de Haldenwang, sem a Aids o número chegaria a 71,3 milhões de habitantes.
 
“A infraestrutura criada não foi só para a Copa do Mundo, principalmente no sistema de transporte público. A reforma de portos e aeroportos também é importante. Tudo isso cria um ambiente propício de eficiência, aliado ao desenvolvimento das telecomunicações, para os negócios e o desenvolvimento social”, explicou Michael Lee.

Para ter acesso à reportagem completa no Portal da Copa 2014, clique aqui.

Publicado por: felipeperetti | 05/07/2010

Cheio

Cidade do Cabo tem recorde de turistas para Alemanha e Argentina

da Cidade do Cabo, Felipe Peretti

Foto: Felipe Peretti

Um dos jogos mais esperados da Copa do Mundo da África do Sul atraiu 300 mil pessoas à Cidade do Cabo. O duelo das quartas de final entre Argentina e Alemanha no último sábado levou ao município sede do Mundial o maior número de turistas até então, segundo a prefeitura local.

No estádio Green Point, 64.100 torcedores assistiram à goleada alemã por 4 a 0, maior número nas arquibancadas da arena neste Mundial ao lado da primeira partida do torneio realizada no local no dia 11 de junho entre França e Uruguai, que terminou empatada sem gols.

Desta vez, entre os espectadores estava a chanceler alemã Angela Merkel, o cantor Mick Jagger e as estrelas de Hollywood Charlize Theron e Orlando Bloom.

Na lanchonete patrocinadora oficial do torneio localizada na frente do estádio, o espaço destinado a pedidos pelo carro deu lugar a uma fila de torcedores.

Foto: Felipe Peretti

Fora da arena, cerca de 153 mil pessoas se aglomeraram nos 2,4 km de “fan walk”, trajeto organizado especialmente para a torcida caminhar entre a estação de trem central e o palco das partida.

“Cidade do Cabo é excelente, as pessoas são realmente amigáveis, não hesitam em ajudá-lo se você se mostra perdido, todos são legais com nós estrangeiros. O único problema é que aqui nessa “fan walk” tem muita gente e eu já me perdi dos meus amigos. Está muito cheio, eles deveriam ter usado outras ruas”, contou o argentino Munir Leeva.

Nas ruas mais próximas ao estádio, alguns pontos de congestionamento foram observados. Alguns preferiram utilizar o transporte público, gratuito em dias de jogos.

Mais 120 mil pessoas passaram no shopping center portuário V&A Waterfront para comer, fazer compras e assistir à partida em um telão especialmente organizado para exibir as partidas da Copa.

Na “fan fest” montada na Grand Parade, antiga sede da prefeitura e onde Nelson Mandela discursou após ser libertado da prisão, os torcedores somaram 42 mil ao longo do dia. Vale lembrar que o espaço tem capacidade para 20 mil pessoas e fica localizado a 2,6 km do estádio.

Para ter acesso à reportagem completa no Portal da Copa 2014, clique aqui.

Foto: Felipe Peretti
Publicado por: felipeperetti | 03/07/2010

Na estrada

Da tristeza a alegria em 760 quilômetros

da Cidade do Cabo, Felipe Peretti

Foto: Felipe Peretti

Logo depois da eliminação brasileira da Copa do Mundo para a Holanda em Porto Elizabeht, viagem de volta a Cidade do Cabo para chegar a tempo para outro jogo das quartas de final: Alemanha x Argentina.

A noite estrelada é o cenário do percurso de 760 quilômetros de rodovia entre as duas cidades-sedes. No escuro, a bela paisagem da Rota do Jardim fica escondida e a única visão possível é a da estrada. Sem nenhum buraco – não é exagero – e muito bem sinalizada, até dá gosto de dirigir pela N2, que oferece apenas um pedágio neste trecho e ao custo de 33 randes (R$ 8,50).

A rodovia recebeu diversas melhorias para a época do Mundial, mas ainda é possível observar homens trabalhando à beira da pista em três pontos. Em duas ocasiões, trânsito só de um lado em razão de obras.

Já na Cidade do Cabo, sem o calor de 30°C de Porto Elizabeth e com o vento dando a sensação térmica de 15°, a festa fica por conta do azul, branco, vermelho, amarelo e preto, cores das duas seleções que até então apresentaram o melhor futebol com passes precisos e ofensividade. E com o Brasil fora, muitos sulafricanos agora vestem o uniforme e se pintam com as cores da equipe do técnico Diego Maradona e da estrela Lionel Messi.

Foto: Felipe Peretti

As expectativas de um grande jogo e cheio de gols aumenta com o gol logo aos três minutos de jogo marcado para a Alemanha por Müller. O sentimento se confirma, mas gols só de um lado. Para alegria de alemães – e brasileiros –, o placar final fica em 4 a 0 para o time do atacante Klose, que está a um gol de igualar a marca de 15 feitos pelo maior artilheiro de todas as Copas, o brasileiro Ronaldo.

Na saída do portão principal do estádio Green Point, um grupo de quatro brasileiros sorridentes segurando uma bandeira brasileira assistia a multidão rumo aos estacionamentos ou estações de transporte público. Mas a brincadeira quase acaba em confusão, como conta o estudante carioca Gabriel.

– Ontem a gente perdeu, mas saiu para festar na rua, afinal é Copa do Mundo. Aí a gente vem aqui hoje, no clima de descontração, e um argentino vem para cima para brigar, dá um soco no nosso amigo. É uma pena. Eles só ganham Mundial com gol de mão (1986) ou armada (1978), coitados. Fazer o que, nem todo mundo entra no clima de Copa.

Foto: Felipe Peretti
Publicado por: felipeperetti | 03/07/2010

Quase perfeito

Sol, praia, festa e… eliminação

de Porto Elizabeth, Felipe Peretti

Foto: Felipe Peretti

Manhã ensolarada em Porto Elizabeth. Os termômetros chegam a marcar 29°C em pleno inverno sulafricano. A ausência de ventos deixa o clima ainda mais com cara de Brasil. Por isso, os brasileiros que ocupam a cidade para a partida da seleção contra a Holanda, pelas quartas de final da Copa do Mundo, sentem-se em casa.

A caminho do estádio, um grupo de torcedores se aglomera em frente ao hotel Protea Marine, em que Dunga e companhia estão hospedados. A chegada do ônibus para conduzir a delegação ao estádio Nelson Mandela Bay atrai ainda mais pessoas.

Nos arredores do estádio, torcedores vestidos de verde e amarelo ou laranja dão o colorido a cidade litorânea. A cada quarteirão que passam a pé em direção ao palco do jogo são aplaudidos por lojistas que tentam continuar a vida normal diante da movimentação mais do que especial.

Foto: Felipe Peretti
Foto: Felipe Peretti

Entre a multidão, um fato chama a atenção: o comércio de ingressos. Seja sulafricano, europeu, brasileiro, sempre pode se notar alguém com bilhetes a serem vendidos. Os preços variam entre 50 e 200 dólares (R$ 90 e R$360).

Na fila da entrada principal do estádio, um paulistano me conta que têm dois ingressos sobrando no bolso porque desistiu de vender diante da concorrência. Dois ingressos de categoria 2 (200 dólares ou R$ 360) para Brasil e Holanda. Sugiro que ele dê para alguém que jamais teria condições de assistir a um jogo de Mundial utilizando o próprio dinheiro. Ele sai, avista duas crianças que apreciam a movimentação e lhes presenteia. Sorrisos que resumem um sonho que se torna realidade a 45 minutos do começo da partida.

Foto: Felipe Peretti

Dentro do estádio, a festa é maravilhosa com o sol deixando os brasileiros mais confiantes em assistir a uma semifinal na Cidade do Cabo. Jogo envolvente, gol logo no começo e as vuvuzelas assistem ao coro verde e amarelo com muito orgulho, com muito amor.

Segundo tempo e o sol começa a se esconder, assim como o futebol da seleção. A virada acontece para desespero de metade das 40.186 pessoas presentes no estádio – quase 2,5 mil a menos da capacidade total.

Foto: Felipe Peretti

O dia que começou perfeito para os torcedores de verde e amarelo termina frustrante. O sonho do hexacampeonato mundial foi adiado para mais quatro anos. Agora é a vez de apontar culpados pela derrota. Quem será o novo Barbosa, o novo Roberto Carlos? Coitado de Dunga e Felipe Melo. Mais do que nunca, eles agora estarão torcendo para a Alemanha eliminar a Argentina e evitar que Maradona beije a taça ao lado de Messi no dia 11 de julho.

Até lá, a Copa do Mundo dos brasileiros terá mais oito dias de torcida. Contra, é claro.

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